O apaziguamento inglês com base no filme “Vestígios do dia”


http://www.tempopresente.org/nossa-producao/artigos/35-america-do-sul/5672-o-apaziguamento-ingles-com-base-no-filme-vestigios-do-dia

Por Higor David Rosa Afonso & Vicente Brison de Souza
O Apaziguamento regendo a política externa –

Paul Kennedy definiu Apaziguamento (ou Appeasement) como:

A política de resolver disputas internacionais reconhecendo e satisfazendo lesões através de negociação racional e conciliação, evitando assim ter que recorrer ao conflito armado. 1

O termo é aplicado aos acontecimentos da década de 30, quando França e, sobretudo, Grã-Bretanha procuram evitar uma guerra total contra o Estado alemão de Hitler. Historicamente fiel aos preceitos do equilíbrio de poder, a Grã-Bretanha o abandona no início do século XX, adotando o Appeasement como princípio regente da sua política externa. O conceito de segurança coletiva, o desarmamento e a busca pela paz substituem a Realpolitk, o que custará caro ao país, embora, à época, o Apaziguamento fosse visto como uma política bastante positiva numa sociedade como a britânica, onde a opinião pública exercia grande influência na decisão de seus governantes.
Apesar de ser indiscutível que a hesitação britânica permitiu a Hitler acumular poder suficiente para reconstruir o poderio militar alemão e ampliar seu território, a política do Apaziguamento não era ruim por natureza. Talvez o que tenha impossibilitado seu sucesso tenha sido a inadequação ao momento e à natureza do Fürher, que Henry Kissinger descreve como egocêntrica e movida por instinto, embora seus objetivos não fossem de todo imprevisíveis. 2 O fato é que a negociação e a concessão não poderiam construir a paz com um homem que via nela a ruína da humanidade 3.

Ascensão de Hitler e a busca do desarmamento
Hitler chegou ao poder com a promessa de destruir as medidas do Tratado de Versalhes, inaugurar uma era de expansionismo alemão e rearmar o país. Ainda assim, as potências européias ocidentais, Grã-Bretanha e França, não se prepararam para um conflito. A Inglaterra, ao contrário, reforçou sua posição favorável ao desarmamento, que não contou com a adesão de Hitler. Em outubro de 1933 a Alemanha se retirou das conversações para o desarmamento, temendo justamente que suas exigências de igualdade militar fossem atendidas, o que arruinaria suas pretensões de armar-se irrestritamente. No mesmo mês, a Alemanha retirou-se também da Liga das Nações e, no início do ano seguinte, declarou que iniciava o processo de rearmamento. Em nenhum dos casos sofreu represálias.
Hitler valia-se de um estratagema que atormentaria as democracias ocidentais ao longo da década: atacar a consciência pesada dos vitoriosos da Primeira Guerra. Para os ingleses, Hitler estava apenas corrigindo um “erro”, entre os muitos existentes em Versalhes, ao reequipar seu país. Além disso, se o Apaziguamento ditava a busca da segurança coletiva, não havia por que tomar qualquer atitude que pudesse ser confundida com um ato de guerra se na verdade Hitler não tinha agido com agressão. Mas nem sequer medidas defensivas foram tomadas. Stanley Baldwin, líder do partido Conservador britânico e líder de facto do governo, advogou a manutenção do congelamento da promoção de aviões de combate sob o argumento de que isso fortalecia os esforços do país na promoção da Conferência de Desarmamento. Henry Kissinger nota com perspicácia que Baldwin só não explicou de que forma esse desarmamento unilateral da Grã-Bretanha convenceria a Hitler a fazer o mesmo 4.
A mensagem de Winston Churchill para a nação ecoou solitária no cenário político do país. Ele insistia para que a nação reequipasse a Royal Air Force como ao menos uma medida defensiva para contrabalançar a movimentação alemã. Tanto governo quanto oposição trataram a proposta com seca ironia, e nada foi feito.

Mussolini e a questão da Abissínia
Por um tempo, Grã-Bretanha, França e Itália estiveram próximas de estabelecer uma aliança militar que as colocaria contra Hitler caso este tentasse subverter o Tratado de Versalhes por meio de força. Em abril de 1935, líderes dos três países se encontraram na região italiana de Stresa para discutir essa aliança. Dois meses depois, a Grã-Bretanha firmou um acordo com a Alemanha em que Hitler se comprometia a limitar sua frota de navios a 35% da britânica e igualar-se  em número de submarinos. Isso demonstrava que a Inglaterra já aceitava a expansão da frota alemã (o que era por si própria uma violação de Versalhes) e que preferia negociar uma conciliação diretamente com o Fürher a depender de seus aliados.
Não bastasse isso, em outubro de 1935 Mussolini arquitetou uma invasão da Abissínia, um país membro da Liga das Nações. Tomado por desígnios imperialistas, ele não via problemas em exercer o controle como um poder colonial no país africano. Porém, num mundo que há pouco havia visto impotente a conquista da Manchúria pelo império japonês, isso não era mais aceitável. A arma da Liga das Nações para prevenir esse tipo de ação era a de sanções econômicas ao agressor, mas essa ferramenta não foi usada com total eficácia. O primeiro-ministro Stanley Baldwin, temeroso de que sanções realmente efetivas, como restrições ao petróleo que chegava à Itália, pudessem criar a guerra, jamais as aplicou.
O secretário para assuntos estrangeiros britânico Samuel Hoare e o primeiro-ministro francês Pierre Laval, elaboraram um acordo que daria dois terços da Abissínia a Mussolini, enquanto o resto do país que permanecesse independente ganharia acesso ao mar através da Somália Britânica. O acordo jamais foi votado na Liga das Nações porque seu conteúdo vazou para a imprensa antes, o que foi recebido com repúdio pela opinião pública inglesa, que por sua vez forçou a demissão do aparentemente bem-intencionado Hoare. Seu substituto, Anthony Eden, permaneceu na estratégia anterior que consistia basicamente na apatia.
Em maio de 1936, Mussolini terminou sua conquista da Abissínia (imediatamente rebatizada como Etiópia), e, em julho daquele ano, as sanções adotadas contra a Itália foram suspensas. Mas já era tarde: Inglaterra e França tinham se colocado contra um aliado de Stresa, em vez de tentar agradá-lo por meio de um acordo com o governo abissínio. Kissinger defende os diplomatas, dizendo que a opinião pública condenou a Abissínia inteira enquanto Hoare e Laval ofereciam uma alternativa em que apenas uma parte seria cedida 5.

A reocupação da Renânia
De acordo com o Tratado de Versalhes, a Alemanha deveria desmilitarizar a região da Renânia, na fronteira com a França, o que foi reafirmado na assinatura do Tratado de Locarno, em 1925. Em março de 1936, entretanto, as tropas alemãs avançaram sobre a Renânia, e os aliados mais uma vez se viram diante de um dilema: deveriam colocar em risco a segurança coletiva e a promessa de paz por um movimento que era visto com naturalidade? 6 Para os ingleses, a ocupação era como se Hitler estivesse passeando por seu quintal. 7 Além disso, a idéia que pairava era a de que Hitler logo ficaria satisfeito quando reconquistasse todos os territórios erroneamente tirados da Alemanha ao fim da Primeira Guerra Mundial e passasse a exercer a soberania sobre todos os alemães na Europa.
Se no caso italiano as sanções foram aplicadas com muita relutância, neste, que não envolvia a violação de soberania nem a invasão de outros países, a Grã-Bretanha se recusaria a fazê-lo. Na verdade, os britânicos não fizeram absolutamente nada para defender os acordos de Versalhes e Locarno; mais uma vez mostrou-se a influência da opinião pública na política externa quando o Secretário de Estado para a Guerra inglês disse ao embaixador alemão que os ingleses “não dão a mínima se os alemães reocupam seu próprio território”. 8 Em nome do apaziguamento, ficou claro na fala do Foreign Office inglês para o charge d’affaires norte-americano que a Inglaterra iria ainda mais longe, “empreendendo todo esforço necessário para evitar a imposição de sanções militares e/ou econômicas contra a Alemanha” 9.
A consumação do ato sem maiores problemas criou rebuliço na Europa Oriental. Não havia mais retificações a serem feitas no Ocidente, e temia-se (e com razão, mostrou-nos a história) que Hitler voltar-se-ia para o leste europeu. Isso é evidenciado na fala do Foreign Minister romeno Nicolae Titulescu para um colega francês “[…] vocês foram incapazes de defender a si próprios, como planejam nos defender contra o agressor [Hitler]?”

Anexação da Áustria e da Tchecoslováquia: o pretexto de unir os alemães
A Áustria sofrera muito ao longo do século XIX, e o início do século XX não era nem um pouco promissor. Centro do Sacro-Império Romano Germânico até 1806 e Estado alemão central até 1866, quando Bismarck anuncia o nascimento da Alemanha sem incluí-la, a Áustria ainda perde territórios na Europa Central e nos Bálcãs, com os tratados de Saint Germain (1919) e Trianon (1920). O que restava era apenas um pequeno território de língua alemã que ansiava pelo passado glorioso, e Hitler era encarado como o homem que faria ressurgir a poderosa Áustria, o que pode ser visto através do movimento Anschluss, que buscava a anexação do país à Alemanha. O processo era expressamente proibido pelo Tratado de Versalhes, o que foi reafirmado pelos Aliados em 1930.
Em 12 de março de 1938, Hitler, incentivado pelos recentes e consecutivos sucessos, invade a Áustria. Talvez uma palavra melhor seja entrar, já que não houve a menor resistência da esperançosa população austríaca.
As reações dos países das democracias aliadas foram no máximo tímidas, pequenos grunhidos de desaprovação frente a um novo desrespeito a Versalhes. E, mais importante, não foram seguidas de ações práticas para lhes dar peso. A esperança agora era de que Hitler pararia quando reunisse todos os alemães sob sua bandeira.
A Tchecoslováquia foi o próximo alvo de Hitler, que em 1937 exigiu pela primeira vez a incorporação da Sudettenland, região do país habitada pelos Sudetos, um povo alemão. Mas a Tchecoslováquia era um lugar povoado por mais povos além dos alemães – e não só por tchecos e eslovacos, pois, entre sua população de 15 milhões, quase um terço não era nem um nem outro.  Além disso, ceder a cadeia de montanhas que correspondia a Sudettenland tornaria a Tchecoslováquia indefensável contra uma eventual invasão alemã. E o país era uma verdadeira e bem-sucedida democracia, com um alto padrão de vida – ou seja, era difícil encontrar um bom pretexto para não defendê-la. 10
Em 1938, as pressões da Alemanha sobre a Tchecoslováquia se intensificaram, com Hitler ameaçando anexar Sudettenland à força. A Inglaterra novamente optou pelo Apaziguamento, advertindo a França de que não faria nada a respeito da Tchecoslováquia e aconselhando-a a fazer o mesmo. Para os ingleses, o compromisso estabelecido em Locarno restringia-se à fronteira alemã com a França, e eles estavam pouco inclinados a agir de maneira que não promovesse a paz na Europa.
Os britânicos estavam convencidos de que deveriam agir para garantir que a guerra não estourasse na região, mas sabiam que o conflito só poderia ser evitado com uma partilha – ou seja, dando a Hitler o que ele pedia. Em setembro de 1938, o primeiro-ministro britânico, Neville Chamberlain, foi à Alemanha discutir os termos com Hitler. Os dois estadistas se encontraram um par de vezes. Na primeira, Hitler alegou que os Sudetos eram maltratados e vítimas de preconceito e propunha que todos os distritos da Tchecoslováquia com mais da metade da população de alemães fossem entregues a ele. Em nome da paz, Chamberlain concordou. Os detalhes deveriam ser discutidos em um segundo encontro ainda na Alemanha, e, nesse ínterim, o primeiro-ministro conseguiu convencer as autoridades tchecas a aceitar o acordo, embora não sem relutância. No segundo encontro, Hitler apareceu com um novo discurso: fazer pesquisas em cada distrito tcheco demoraria demais para seu gosto e, portanto, os territórios Sudetos deveriam ser evacuados em no máximo dois dias, deixando pra trás instalações militares a serem usadas pela Wermacht – começando quatro dias após o encontro. Para piorar, ele também fez exigências parecidas em relação à Hungria e à Polônia, à guisa do mesmo argumento de minorias étnicas alemãs oprimidas.
Por um momento, a guerra esteve prestes a acontecer: Chamberlain viu-se incapaz de aceitar argumentos que até ele admitia ser ultrajantes para um país, qualquer que ele fosse. O cenário europeu continuou tenso até que Mussolini propôs uma conferência entre os representantes de Inglaterra, França, Itália e Alemanha, em Munique. Nesse encontro, que viria a ser conhecido como o Pacto de Munique, Hitler mostrou-se inflexível, de modo que de acordo com as ações que França e sobretudo Grã-Bretanha haviam empreendido até então, não havia um casus belli justificável. O Pacto foi ratificado, e a Tchecoslováquia efetivamente aleijada e desprotegida.
O Pacto de Munique permanece como um acordo desastroso para as democracias ocidentais, embora na época Chamberlain tenha sido muito congratulado pelo resultado. Refletindo o que se acreditava na época sobre os princípios do Appeasement, Chamberlain também deixa a memorável declaração após o fechamento do acordo de que ele teria “trazido a paz para o nosso tempo”. Entretanto, o tratado firmado em Munique também marca o fim da desastrosa linha de pensamento que guiara a Grã-Bretanha durante toda a década de 1930. Os britânicos não aceitariam mais a chantagem emocional de Hitler, nem tampouco seus apelos à consciência pesada dos vencedores da Primeira Guerra Mundial.
Hitler enfim invade e ocupa a Tchecoslováquia em março de 1939, englobando também as pessoas que não eram de origem alemã. Aquela era a gota d’água. Hitler, que já havia ultrapassado o limite do aceitável, agora transgredia também as fronteiras da autodeterminação. Pela primeira vez a opinião pública inglesa encarava o ato como uma agressão que deveria ser respondida de pronto, e o governo de Chamberlain não tardou a concordar.

O apaziguamento segundo o filme “Vestígios do dia”.
Trajado em seu elegante uniforme de trabalho, Stevens prepara-se para servir os cerca de vinte ilustres convidados daquela noite. A mansão, acostumada à presença de figuras importantes, como se vê pelo proprietário, Lorde Darlington (James Fox), seria daqui para frente um marco histórico nas tomadas de decisão da política externa dos aliados. Longos anos de negociação e diplomacia gravados em cada parede e também nos ouvidos de um único homem. Ninguém mais saberia tanto quanto James Stevens, o mordomo. O homem que tudo vê e nada enxerga, que tudo ouve e nada escuta. Seu conhecimento sobre política internacional não é grande, disso não há dúvida; é de segredos de estado que se faz seu arquivo mental. Mas é sua classe que mais desperta o interesse, afinal um homem que tanto conhece tem sempre o inegável direito à opinião. Assim, de peito estufado, postura impecável e orgulho inabalável ele sempre responde: “Sou apenas o mordomo. Esses assuntos não me dizem respeito”.
Estamos em 1958. Nas ruas de uma Londres já recuperada dos temores da guerra, Anthony Hopkins é quem encarna o mordomo James Stevens. Um homem de educação ímpar, grande aspirante da política de excelência profissional, dirige em busca de uma velha amiga, a governanta Sally Kenton (Emma Thompson), que deixara o serviço na mansão de Lorde Darlington há muitos anos. Enquanto trilha seu caminho, o foco da história dirige-se para alguns anos antes, ainda no período da Segunda Grande Guerra, onde Stevens e Sally tinham de se preocupar com jantares de gala, reuniões importantes e encontros diplomáticos de seu patrão. De forma consistente e lúcida, a narrativa é construída em torno do ponto de vista do mordomo, que sutilmente é comparado à realidade em que vivia. Essa comparação se dá na forma de breves expressões, opiniões vagas e olhares inquietos, já que Stevens parece não ver ou ouvir nada do que acontece durante as reuniões e encontros do Lorde. Um comportamento que demonstra a alienação de sua origem: a massa trabalhadora, mesmo que educada, interessada apenas em servir e garantir seu sustento diário.
Durante os eventos – quase sempre noturnos – que ocorriam na mansão, decisões importantes eram tomadas. Ali eram discutidas as propostas da Alemanha Nazista, a forma como isso afetaria a nação Britânica e, mais importante, o reflexo destas sobre as decisões dos aliados. Desta forma, muitos nomes de grande relevância participavam dos encontros. A maioria dos presentes eram Aristocratas e membros da família real, com a presença ocasional de militares e políticos influentes. É a chegada de um jovem diplomata estadunidense, Jack Lewis (Christopher Reeve), que irá mudar esse cenário. Obstinado, com a objetividade fria comum à sua cultura, aparece dias antes do jantar, aguardando a chegada de um influente político Francês a fim de convencê-lo a conversar com Lorde Darlington e abrir-lhe a mente para o erro que estava cometendo. Afinal, o Lorde era bastante simpático à Alemanha Nazista e defendia uma política de aliança entre a Grã-Bretanha e a terra de Hitler. Após inúmeras e infrutíferas tentativas, vendo-se completamente derrotado pela incompetência política do Lorde e de todos que o apoiavam, declara de forma elegante – e fria – numa breve discussão com seu anfitrião que todos ali eram “Amadores. E a política internacional não deveria ser guiada por cavalheiros tão amadores.” Suas considerações sobre a Realpolitik e os verdadeiros interesses dos Alemães são no mínimo preocupantes. Tanto que os sussurros que invadem a mansão pelos próximos meses concentram-se na possibilidade de um equívoco por parte do Lorde, que, ao aliar-se aos Nazistas estaria defendendo uma política de autodestruição.
Antes, durante e depois de cada reunião, Stevens preocupa-se em manter todo o lugar organizado, em pleno acordo com a discrição e pontualidade comum à Grã-Bretanha. Seu trabalho, além de servir, consiste em ser educado e invisível. Não há qualquer tipo de interação entre o mordomo e os convidados, a não ser por dúvidas ocasionais sobre o prato do dia, que são prontamente respondidas pelo serviçal. Mesmo quando sua amiga, pela qual nutre uma paixão secreta (que resiste e ignora o quanto pode), desconfia do que se passava naquelas reuniões, Stevens desconversa. Seu comprometimento com a profissão é impecável, ao mesmo tempo em que sua alienação, incorrigível. Ao ser questionado por jovens aspirantes à profissão faz questão de lembrá-los qual deve ser seu lugar, dizendo: “Em minha filosofia um homem não pode considerar-se plenamente satisfeito até que tenha feito tudo o que puder a serviço de seu empregador. É claro que isso assume que seu empregador é uma pessoa superior, não apenas em posição ou riqueza, mas na estatura moral”.
Esse tipo de pensamento reflete a estrutura social do período, onde a mobilidade entre classes é quase nula e o trabalhador comum contentava-se em seguir com seus próprios assuntos, deixando a política para os políticos.  Não havia qualquer interesse na participação produtiva diante do processo de tomada de decisões, apenas nos resultados. Durante o filme, percebemos essa relação do cidadão comum com o resultado no período pós-guerra quando o orgulhoso Stevens precisa esconder que trabalhara para o “Lorde Nazista” sempre que perguntado. Afinal, mesmo que não soubessem das motivações que levaram o Aristocrata a tomar suas decisões, todos o julgam pelo desastroso fim a que elas o conduziriam.
É de forma conturbada que a guerra vai chegando ao fim e Lorde Darlington cai em profunda depressão e melancolia. Stevens ainda acompanha os últimos dias de vida e lida com a amargura reclusa do patrão. Mais um segredo que ficaria guardado com o chefe dos mordomos, que após a morte de Lorde Darlington continua a trabalhar na mansão com a qual criara laços infinitos de dedicação. Assim, segue organizando a casa para uma família que chegaria naquele verão, esposa e filhos do outrora jovem Jack Lewis, que mesmo após tantos anos ainda se lembrava daquela fatídica noite em que de forma cavalheiresca ofendera o Lorde e todos os seus convidados. O que Jack não consegue se lembrar é exatamente das palavras que usara. Ele pergunta a Stevens minutos antes de dar-lhe férias para que resolva alguns assuntos pessoais. O mordomo busca por alguns segundos na cansada memória e percebe que sabia do que se tratava. Ele então fita o novo patrão, a postura impecável, e responde: “Não me lembro desse evento em particular, senhor”.

Conclusão
O Tratado de Versalhes foi sistematicamente destruído nos anos que se seguiram à Primeira Grande Guerra. A República de Weimar conseguiu desvencilhar a Alemanha do pagamento de indenizações aos vencedores e forçar a desocupação da Renânia pelos aliados. Hitler conseguiu convencer os outros países de que poderia se rearmar, militarizar novamente a região fronteiriça com a França e fazer várias anexações territoriais. O fürher conseguiu instilar a culpa na consciência dos vencedores. Enquanto isso, o povo britânico reflete a forma como é conduzida sua política, garantindo o sucesso Nazista. A grande massa trabalhadora, como James Stevens, ignora os fatos e aceita o ressurgimento militarizado da “não tão perigosa” Alemanha, mesmo sabendo que o perigo era eminente.
Quando Hitler exige que o porto de Danzig lhe seja entregue e que se crie o corredor polonês, pela lógica vigente dos britânicos e seus aliados, não há por que negar-lhe sua demanda. Danzig era uma cidade quase plenamente alemã e não havia impedimentos para organizar uma pacífica divisão do território com as autoridades polonesas. Mas já era outro tempo. Como cita o jovem Jack Lewis, a política era feita por amadores – uma aristocracia crédula que esperava por uma boa margem de lucro. Hitler já gastara seu crédito com os países democráticos que não tinham mais a paciência nem a ingenuidade para acreditar que ele buscava apenas o que deveria ser alemão por direito. Por fim, Chamberlain e a opinião pública inglesa se convenceram que não haveria como apaziguar Hitler, pois eles não buscavam um objetivo em comum.

Notas

1. KENNEDY, 1983, tradução nossa
2. KISSINGER, 1994, tradução nossa
3. HITLER, 1940, tradução nossa
4. KISSINGER, 1994, tradução nossa
5. KISSINGER, 1994, tradução nossa.
6. SILVA, 2009.
7. KISSINGER, 1994, tradução nossa.
8. KISSINGER, 1994, tradução nossa.
9. WEINBERG, 1970, tradução nossa
10. KISSINGER, 1994, tradução nossa

Bibliografia
•    HITLER, Adolf. Mein Kampf. Nova Iorque: Reynal & Hitchcock, 1940. 175 p.
•    KISSINGER, Henry. Diplomacy. Nova Iorque: Simon & Schuster Paberbacks, 1994. 912 p.
•    SILVA, Fransisco Carlos Teixeira da (Org.) et al. Impérios na história
•    SILVA, Fransisco Carlos Teixeira da (Org.) et al.
•    WEINBERG, Gerhard. The foreign policy of Hitler’s Germany: Diplomatic Revolution in Europe. Chicaco: University of Chicago Press, 1970. 241 p.
•    VESTÍGIOS DO DIA. Direção: James Ivory; Roteiro: Ruth Prawer Jhabvala; USA (1993).

DAVID, Higor. O apaziguamento inglês com base no filme “Vestígios do dia”. Revista Eletrônica Boletim do TEMPO, Ano 6, Nº16, Rio, 2011 [ISSN 1981-3384]

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