Marcas da pré-história em templos neolíticos


English: Mdina, the old capital of Malta

English: Mdina, the old capital of Malta (Photo credit: Wikipedia)

A primeira celebridade atraída por Malta foi Ulisses. O herói da Odisseia, de Homero, naufragou na costa da ilha de Ogígia, onde vivia Calipso, a ninfa do mar. Ela o manteve preso por sete anos, até Zeus enviar Hermes para libertá-lo. Muitos creem que Ogígia seja a ilha de Gozo, onde uma gruta leva o nome de Calipso.

Se é fato ou versão, pouco importa. A gruta não passa de uma fenda na rocha no topo de uma montanha. Mas o passeio vale pela vista da Baía de Ramla, uma das mais charmosas de Malta. Razão suficiente para Ulisses não sentir saudades de casa.

De um período imemorial, como o de Ulisses, é o templo de Ggantija, também em Gozo. Patrimônio da Unesco, foi construído em 3500 a.C. – 500 anos antes de Stonehenge, na Grã-Bretanha. Em Malta, o visitante desatento tropeça em ruínas neolíticas. Os complexos estão por todas as partes: Hagar Qim e Mnajdra (foto), os templos de Tarxien, Skorba e Ta’ Hagrat, e sua maior joia arqueológica, o Hipogeu de Hal Saflieni.

O santuário é o único templo pré-histórico subterrâneo do mundo. A catedral neolítica data de 3000 a.C. e continha 7 mil corpos quando foi descoberta acidentalmente por pedreiros de um obra, em 1902.

O dióxido de carbono exalado pelos turistas vinha dilacerando os quase 500 metros quadrados de salões e câmaras mortuárias, o que obrigou o governo a fechar o lugar por dez anos. Quando foi reaberto, as entradas foram limitadas a 60 pessoas por dia. Por isso, é fundamental garantir o ingresso com antecedência.

As construções só sobreviveram porque passaram os últimos 5 mil anos enterradas – a maioria foi descoberta por acaso no último século. Expostas ao clima, começaram a definhar. Autoridades travam agora uma batalha para salvá-las. Hagar Qim e Mnajdra já foram cobertos com lona e estrutura metálica. A visão futurística tirou um pouco da grandiosidade dos templos e quase causou uma convulsão social em Malta, mas é o preço que se paga pela guerra desigual contra o vento, o sol e o mar.

Malta: O tesouro da Europa

Com área equivalente a um terço da cidade de São Paulo e apenas três ilhas (do total de seis) habitadas, país localizado entre a Itália e a Tunísia abriga a menor capital do Velho Continente

05 de junho de 2012 | 3h 23
“O quê?” Essa é a reação mais comum dos amigos quando você conta que pretende ir a Malta. A segunda mais comum é “hã?”, seguida de perto por um indignado, porém sincero, “você está louco?”. É possível que alguém de sua família pense que você está se metendo em algum buraco tomado por radicais islâmicos, vá saber.
Diante de Valeta, do outro lado da Baía, fica a trinca Birgu, L-Isla e Bormla, ou The Three Cities - Cristiano Dias/ AE
Cristiano Dias/ AE
Diante de Valeta, do outro lado da Baía, fica a trinca Birgu, L-Isla e Bormla, ou The Three Cities

O bom senso diz que o sujeito que tem uma semana de férias deve usá-la da melhor maneira possível. Então, não faz sentido, segundo os ajuizados, abdicar de Roma, Paris ou Barcelona por um lugar que ninguém sabe sequer se fica na Europa.

Portanto, o único pré-requisito para ir a Malta é a coragem. É preciso ser firme para desfazer-se do lenga-lenga dos roteiros tradicionais e dispensar as visitas de 12 horas oferecidas por cruzeiros de dez dias.

Sua passagem por Malta não pode ser calculada em horas, de jeito nenhum. Depois de alguns dias, você percebe que o seu tempo na ilha deveria ser contado em semanas e é aí que mora o problema. Depois de um mês, é possível que você não queira mais voltar para casa.

Há um ambiente magnético em Malta. Não importa o quanto dure a viagem, a sensação é que foi pouco. O herói grego Ulisses ficou sete anos. O apóstolo Paulo, três meses. Caravaggio passou um ano. Elizabeth ficou três, antes de se tornar rainha da Inglaterra. Recentemente, o cenário seduziu Steven Spielberg, Ridley Scott e Brad Pitt.

English: Rotunda St. John The Baptist in Xewki...

English: Rotunda St. John The Baptist in Xewkija, Gozo, Malta. Deutsch: Die Rotunda von Xewkija, Gozo, Malta. (Photo credit: Wikipedia)

No mundo globalizado, em que as informações circulam em tempo recorde e paisagens conhecidas viram ímã de geladeira, Malta dá ao turista uma matéria-prima cada vez mais rara: a surpresa. Antes de desvendar o mistério, no entanto, cabe a liturgia da explicação.

Malta não é parte da Itália, não fica no Mar Egeu e não tem nenhuma relação com a Grécia. O segredo mais bem guardado do Mediterrâneo é um arquipélago de meia dúzia de ilhas, apenas três habitadas, entre a Sicília e a África. Ao todo, são 316 quilômetros quadrados, um terço da área da cidade de São Paulo, onde vivem 450 mil pessoas que falam o maltês, um elo perdido do árabe carregado de expressões italianas e inglesas.

Desfeito qualquer mal-entendido, vem a primeira constatação: o passado de Malta é o resumo de tudo o que ocorreu no Mediterrâneo. Apesar do pouco espaço, as ilhas trazem a história ocidental marcada em calcário. Os templos neolíticos, o período romano, os primeiros cristãos, a influência árabe, a civilidade do renascimento e a religiosidade do barroco, os jardins do século 19 e as marcas deixadas pelos bombardeios italianos e alemães na 2.ª Guerra.

Século 1º
MUNDO ANTIGO

Paulo e os cristãos

“Estando já salvos, soubemos então que a ilha se chamava Malta.” É com essa sensação de alívio que o apóstolo Paulo começa o ato 28 da Bíblia. No ano 60 d.C., ele havia sido preso em Caesarea e enviado a Roma para julgamento. Depois de uma tormenta, o barco ficou 14 dias à deriva e naufragou no litoral da ilha. Em apenas três meses, Paulo abriu sua carteira de milagres, multiplicou os cristãos e seguiu viagem para a capital do Império, onde foi sentenciado à morte.

Com o tempo, o cristianismo tornou-se parte da identidade local. Juntas, Malta e Gozo têm 79 paróquias e 365 igrejas. O catolicismo é a religião oficial do Estado, mais da metade da população frequenta a missa, o aborto é ilegal e o divórcio foi aprovado apenas no ano passado. Os primeiros vestígios da fé estão nas catacumbas de San Katald, St. Augustine, St. Paul e St. Agatha (foto), que teria ganhado esse nome por servir de abrigo para umas das primeiras mártires cristãs.

Século 9º
A IDADE MÉDIA

Os árabes e Mdina

Mdina é a cidade mais charmosa de Malta. Apesar de o lugar ser habitado há 3 mil anos, foram os muçulmanos, no século 9º, que começaram moldar sua silhueta atual – “medina” significa “cidade fortificada”, em árabe. As muralhas pesadas e o fosso fizeram a fama do lugar que conquistou a aristocracia e foi a capital da ilha durante todo o período medieval.

Quando a Ordem dos Cavaleiros de São João chegou a Malta, no século 16, o centro do poder passou para o litoral e Mdina se encolheu. A Città Nottabile da Idade Média virou a Cidade Silenciosa da renascença. Hoje, pouco mais de 200 pessoas vivem dentro de suas muralhas.

A melhor maneira de conhecer Mdina (foto) é se lançar sem direção por suas vielas estreitas. Percorrê-las de cima abaixo não leva mais do que meia hora. No entanto, quanto mais devagar a caminhada, melhor. Algumas paradas são obrigatórias. O Palazzo Falson, magnífica mansão onde viveu o colecionador de arte Olof Gollcher, a catedral de St. Paul e o Xara Palace, um dos hotéis mais requintados do país. Se não for possível passar a noite, vale a pena simplesmente sentar-se no restaurante e comer apreciando o vaivém dos turistas.

Mdina é fotogênica. Para qualquer lugar que se aponte a câmera, ela devolve uma bela imagem. A dica é arriscar um passeio no fim de tarde e começo de noite, quando o sindicato dos turistas já deu no pé e os velhos candeeiros dão um aspecto ainda mais bucólico aos becos.

Século 16
RENASCIMENTO

A Ordem de Malta

A Ordem dos Cavaleiros de São João foi fundada no século 11, durante as Cruzadas, para proteger peregrinos cristãos na Terra Santa. Os muçulmanos expulsaram a organização do Oriente Médio em 1291 e ela buscou refúgio na ilha de Rodes. No século 16, o sonho de retomar Jerusalém ficou mais distante quando os otomanos botaram todos para correr do Mar Egeu. Em 1530, sem ter para onde ir, aceitaram a sugestão do imperador Carlos V e se mudaram para Malta.

Prevendo novos conflitos contra os turcos, o grão-mestre Jean Parisot de la Valette construiu uma linha de fortes: St. Angelo, St. Elmo e St. Michael, que até hoje dominam a paisagem do porto. A frota turca chegou na primavera de 1565 com 30 mil soldados. O sultão Suleiman pretendia cercar a ilha, matar a população de fome e usar Malta como base para invadir a Europa. Entre ele e o sul da Itália, porém, estavam 700 cavaleiros e 5 mil malteses, que resistiram por seis meses e fizeram o sultão bater em retirada.

Em gratidão, monarquias europeias enviaram dinheiro para construir Valeta (foto) – homenagem ao grão-mestre La Valette. Foi a primeira cidade planejada da Europa, com traçado em xadrez, sistema de água subterrâneo e um conjunto de muralhas. Hoje, com 7 mil habitantes, é a menor capital do continente. Após se consolidar na ilha, a Ordem de Malta trouxe o renascimento da Itália, que deixou de herança o Palácio do Grão-Mestre e a catedral de St. John. Os prédios renascentistas, porém, foram atropelados pelo barroco, que tomou a decoração interna e dominou o país.

Século 17
BARROCO

O legado de Caravaggio

Malta ainda deitava na fama de salvadora da Europa quando recebeu o pintor Michelangelo Merisi, em 1607. Conhecido pelo nome de sua cidade, Caravaggio, ele era um encrenqueiro com longa ficha corrida. Depois de matar um jovem durante um jogo de tênis, fugiu de Roma e foi parar em Malta, onde teve recepção de gala. Na ilha, o gênio da luz e da sombra pintou alguns de seus melhores quadros, incluindo a Decapitação de São João Batista (foto), exposto na catedral de St. John. Após se meter na enésima briga, Caravaggio feriu um cavaleiro da Ordem e foi expulso de Malta.

Século 19
O SÉCULO 19

Um jardim e 3 cidades

Diante de Valeta, do outro lado da baía, está a trinca Birgu, L-Isla e Bormla. Depois do cerco a Malta, as três cidades foram rebatizadas de Vittoriosa, Senglea e Cospicua, mas os malteses costumam se referir ao lugar como Cottonera ou simplesmente The Three Cities (As Três Cidades). As ruas apertadas, o casario e suas sacadas, as igrejas, fortes e museus são um convite para uma caminhada sem direção.

De lá, é possível tomar um pequeno cruzeiro pelo porto. Do outro lado da baía estão as docas de Valeta, as fortificações da capital e o Upper Barrakka Gardens, magnífico jardim aberto ao público no século 19. Localizado em um dos pontos mais altos da capital, ele tem a vista mais deslumbrante de Malta. Antigo refúgio dos cavaleiros, hoje o local é uma dádiva para quem quer folhear um livro, tomar um sorvete ou apenas olhar os últimos 500 anos de história no horizonte.

No centro do parque há um monumento dedicado ao almirante Alexander Ball, primeiro governador de Malta. No terraço abaixo, a fileira de canhões (foto) lembra o período em que navios eram saudados com um disparo ao entrarem no porto. Desde 2004, todos os dias uma trupe de guardas paramentados descarrega um dos canhões, britanicamente, ao meio-dia.

Século 20
2ª GUERRA

A gratidão britânica

Desde o Congresso de Viena, em 1814, que os britânicos perceberam a importância estratégica de ter uma base no Mediterrâneo, entre o litoral italiano e o africano, para garantir a passagem de mercadorias da Índia e, mais tarde, do petróleo do Oriente Médio. Assim, na 2ª Guerra, Malta tornou-se uma flecha apontada para a Sicília e para as divisões Panzer do general Erwin Rommel, a Raposa do Deserto, no Norte da África.

Tomá-la foi uma das prioridades do comando de guerra nazista e os bombardeios começaram no dia 11 de junho de 1940, um dia depois que a Itália entrou na guerra. A ilha foi sistematicamente atacada nos dois anos seguintes pela Força Aérea italiana, que, nos últimos meses do conflito, contou com o apoio dos esquadrões de bombardeiros Stuka, enviados por Hitler à Sicília. “Sem Malta, o Eixo perderá o controle do Norte da África”, alertava Rommel, em 1941.

A essa altura, as operações britânicas em Malta já haviam começado a afetar o envio de suprimentos de combustível para os tanques do Afrika Korps, de Rommel, e as marinhas mercantes italiana e alemã sofriam pesadas baixas em ações de submarinos estacionados em Valeta. Foi quando Hitler tomou a dramática decisão de sufocar a ilha.

Assim como os turcos otomanos no século 16, a ideia do Führer era sustentar um cerco a Malta, tentar matar a população de fome e destruir o moral do inimigo com uma sequência neurótica de violentos ataques aéreos. A ilha foi bombardeada por 154 dias consecutivos.

Em apenas um mês, entre 20 de março e 28 de abril de 1942, os alemães realizaram 11,8 mil missões aéreas e lançaram 6,5 mil toneladas de bombas – nenhum outro lugar da Europa foi tão violentamente atacado durante a 2ª Guerra. Para evitar a rendição de Malta, os britânicos planejaram a Operação Pedestal, em agosto de 1942, e enviaram comida e combustível em 14 cargueiros acompanhados por uma escolta de 2 couraçados, 7 cruzadores, 3 porta-aviões e 24 destróieres.

Durante cinco dias, a frota esteve sob fogo pesado. Apenas cinco cargueiros chegaram a Valeta, mas salvaram a ilha. Em gratidão pelo papel decisivo na guerra, os britânicos concederam a todos os malteses a Cruz de Jorge, a mais alta condecoração civil do reino.

Hoje, a insígnia está em exibição no Museu Nacional da Guerra, em Valeta e na bandeira maltesa. Em Vittoriosa, Sanglea e Cospicua estilhaços de bombas ainda marcam as paredes de vários edifícios.

O que levar

Ferramentas do ócio
Livro, óculos escuros e parafernália de praia.

Máscara e snorkel
Nadadeiras e equipamento de mergulho podem ser alugados, mas as duas peças não pesam na mochila e são úteis em qualquer praia.

Ingresso do Hipogeu
A entrada é restrita, mas o ingresso pode ser comprado no site da Heritage Malta (booking.heritagemalta.org). Reserve com pelo menos um mês de antecedência.

O que trazer

Artesanato de vidro
Vidro é arte em Mdina. Em uma curta caminhada é possível encontrar belos jarros, potes e copos coloridos.

Vinhos
Malta tem bons vinhos, mas a produção é voltada para o mercado interno. Ter um rótulo maltês é um luxo.

Camisas de futebol
Nada mais exclusivo do que levar para um fã do esporte bretão a camisa da seleção de Malta ou de um de seus melhores clubes: Valletta, Hibernians ou Floriana.

Saiba mais

Aéreo: São Paulo-Malta- São Paulo desde US$ 1.979 na TAM (tam.com.br); US$ 2.061 na TAP (flytap.com); e US$ 2.125 na Emirates (emirates.com), com duas paradas. Com uma parada: US$ 2.209 na Alitalia (alitalia.com) e US$ 2.530 na Lufthansa (lufthansa.com)

Pacotes: veja em blogs.estadao.com.br/viagem

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