Marginal vai ‘ganhar’ 50 mil novos carros


LUÍSA ALCALDE

Nos próximos anos, a capital terá 12 novos empreendimentos na Marginal do Pinheiros que vão gerar quase 50 mil vagas de estacionamento ao longo de uma das principais vias da cidade, já bastante congestionada. A maior parte desses mega complexos – que vão abrigar torres comerciais, residenciais, hotéis e shoppings centers – concentra-se nas regiões de Santo Amaro, Chácara Santo Antônio, Morumbi, Vila Olímpia e Itaim-Bibi, na zona sul.

Esses projetos constam de uma lista de 200 empreendimentos de grande porte – levando em conta o metro quadrado construído e o número de vagas criadas – considerados polos geradores de tráfego, elaborada pela Secretaria Municipal de Habitação e enviada ao Ministério Público (MP).

Com base nessa listagem, o MP quer saber quais as contrapartidas exigidas pela Prefeitura para aprovar os projetos e que tipo de obras viárias serão cobradas da iniciativa privada para que o trânsito nos entornos não se torne um caos e um transtorno a moradores dessas regiões.

“Este ano, nossa prioridade é investigar como a mobilidade urbana vem sendo tratada pelo poder público”, afirma o promotor José Carlos de Freitas, da Habitação e Urbanismo. “Os reflexos não são sentidos apenas no trânsito, mas também afeta outras áreas como a permeabilidade do solo da cidade”, explica ele.

O maior empreendimento – em tamanho e número de vagas – da capital fica na região da Chácara Santo Antônio, nos terrenos das antigas fábricas Monark e Tinken, entre as ruas Engenheiro Mesquita Sampaio, José Vicente Cavalheiro, João Peixoto dos Santos e Antônio de Oliveira. O terreno tem 585 mil metros quadrados e vai gerar 10.483 vagas.

Terá hotel, torres comerciais e residenciais e também um shopping center. As obras ainda nem começaram, mas moradores do entorno já se mostram preocupados com o futuro do bairro. É o caso da professora aposentada Sueli Labônia, de 60 anos, que mora no local há 36 anos. “Está todo mundo preocupado com as desapropriações que devem ocorrer para que as obras viárias sejam realizadas”, diz Sueli.

O marido dela, o advogado Nelson Labônia, de 68 anos, vislumbra uma grande revolução no bairro quando o megaempreendimento abrir. “Vai transformar totalmente a região e o trânsito, que de alguns anos para cá já ficou complicado entre as 20 horas e as 21h30”, afirma.

Na Marginal do Pinheiros, esquina com a Rua Luis Correia de Melo, na região de Santo Amaro, zona sul, no terreno onde durante anos funcionaram quadras de tênis para aluguel, outro empreendimento começa a tomar forma. No local, haverá 396 unidades residenciais, 204 salas comerciais e 20 espaços corporativos com 1.364 vagas. As movimentações de caminhões já preocupam moradores, como a aposentada Hiromi Kondo, de 68 anos, que vive há 40 anos no bairro.

“No ano passado começou a funcionar um condomínio residencial e há outros dois sendo erguidos. O trânsito já é difícil pois essa rua virou rota de fuga da Marginal”, conta.

Na Marginal do Pinheiros esquina com as ruas Doutor Rubens Gomes e Acari, também na região de Santo Amaro, um terreno de 201 mil metros quadrados vai abrigar o Brookfield Towers, com duas torres e um shopping center. O local teria o prédio mais alto do País, com 200 metros, mas a altura foi rebaixada para 135 metros. Serão 3.809 vagas de estacionamento. “Ninguém vai sair do lugar de carro”, diz o metalúrgico Antonio Andrade, de 61 anos, que trabalha em uma empresa ao lado.

Sem obras, empreendimento não pode abrir

Grandes empreendimentos comerciais, residenciais, shopping centers, hipermercados, faculdades, entre outros, são obrigados, por lei, a promover e custear melhorias no sistema viário do entorno dos bairros onde serão instalados.

Entre as contrapartidas exigidas constam mudanças viárias como alargamento de ruas, instalação de semáforos, pintura de vias, construção de passarelas e até viadutos. O objetivo é diminuir o impacto que empreendimentos de grande porte causam sobre o tráfego das vias que lhes dão acesso.

Cabe à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) decidir que tipo de intervenções deverão ser feitas. Somente depois de cumprirem todas as exigências é que a Prefeitura concede o alvará, conhecido como “habite-se”, para que os empreendimentos comecem a funcionar.

Alguns polos geradores de tráfego: edifícios residenciais com 500 vagas de estacionamento ou mais; não residenciais com 120 vagas ou mais em áreas especiais de tráfego; não residenciais com 280 vagas ou mais nas demais áreas da capital; serviços socioculturais, de lazer e de educação com mais de 2,5 mil metros quadrados de área construídos; locais de reunião ou eventos com capacidade para 500 pessoas ou mais.

Projetos são aprovados sem avaliação de impacto

O engenheiro de tráfego Roberto Scaringella, ex-diretor da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), diz que as políticas de uso do solo e de mobilidade urbana precisam com urgência serem harmonizadas na capital. “Devem ser duas legislações harmônicas e não divorciadas”, disse.

De forma semelhante pensa a arquiteta e urbanista Lucila Lacreta, da ONG Defenda São Paulo. “A Prefeitura, nos últimos anos, tem aprovado grandes empreendimentos sem levar em conta os impactos cumulativos que eles vão causar nas regiões em que estão sendo instalados” afirma.

“A Secretaria de Habitação aprova alguns projetos e a CET outros, sem que eles estejam conectados uns com os outros. Dessa forma, não se sabe a correta dimensão dos impactos para a cidade. E, o pior, ao longo desses novos empreendimentos não há previsão de instalação de transporte público para desafogar o trânsito. Lá na frente isso vai dar muito errado. É um crime o que vem sendo feito ”, afirma ela.

O professor João Sette Whitaker, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP e do Mackenzie, também vê com enorme preocupação como a cidade vem sendo urbanizada nos últimos anos. “É o total liberalismo do capital. São os interesses imobiliários que estão prevalecendo. As grandes empresas fazem o que bem entendem”, diz.

“É só ver exemplos recentes: a Ponte Octavio Frias de Oliveira, da Marginal do Pinheiros, não foi feita para ônibus e as vias da Marginal do Tietê foram alargadas sem que mais quilômetros de metrô fossem abertos. Estão matando a cidade”, analisa Whitaker.

http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/marginal-vai-ganhar-50-mil-novos-carros/

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