Aprendendo de graça com os tops


Mais ágil, segunda onda da educação gratuita online amplia oferta de videoaulas; Brasil ganha portal com legendas para quem não sabe inglês

Por que, na sociedade do conhecimento, os superastros estão na indústria do entretenimento? Professores podem ser superastros? Falando de professores, faz sentido gastarem o tempo em sala de aula entregando conteúdo, em vez de elaborar sobre ele? Se cai na conta da “ignorância” a culpa por boa parte dos males de um país (e do mundo), por que tão poucos têm acesso à educação?

A resposta para tudo isso pode estar na educação de graça online, acessível para todos. É esse espírito que une projetos da segunda onda da coalizão informal que se propõe a revolucionar o ensino em escala global. Para falar sobre esse processo, o Estadão.edu ouviu representantes de dois portais, o americano Coursera e o brasileiro Veduca, e da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) – que ganhará autonomia se a Assembleia aprovar um projeto enviado pelo governo paulista no dia 18.

Também no dia 18, o Coursera anunciou que recebeu de investidores US$ 16 milhões para produzir videoaulas, além do fechamento de parcerias com as Universidades de Stanford, Berkeley, Michigan, Princeton e da Pensilvânia. Em vez das pesadas estruturas criadas por consórcios de universidades para oferecer educação a distância que naufragaram nos anos 90, tanto o Coursera quanto seu antecessor imediato, o Udacity, nasceram de iniciativas individuais. Foram criados por professores que deixaram cargos cobiçados em Stanford na esteira do sucesso de três cursos presenciais transpostos para a web. Cada um deles atraiu no ano passado mais de 100 mil alunos de todo o mundo.

A ideia é oferecer cursos (na verdade disciplinas), normalmente divididos em módulos de uma dezena de aulas. “Nossa estratégia tem sido buscar parcerias com universidades top”, diz um dos criadores do Coursera, Andrew Ng, que dava aulas de Ciência da Computação em Stanford (leia entrevista neste link). “Estamos colocando o conteúdo dos cursos online, seja de Finanças ou de Ciência da Computação. Embora pertençam ao universo do ensino superior, muitos cobrem tópicos de interesse geral: poesia, sociologia, história da internet ou efeitos das vacinas na saúde humana.”

Na semana passada, o Coursera adicionou seis cursos aos sete que já estavam disponíveis. Nos próximos meses, serão mais 30, dados por professores-celebridades, como Charles Severance, da Universidade de Michigan, que vai contar em seis semanas, a partir de 23 de julho, a história da criação da web e de como ela funciona no curso História da Internet, Tecnologia e Segurança. “Para operar num mundo centrado na informação, precisamos entender como funciona a tecnologia em rede”, explica, no portal.

O trunfo de Severance, além da qualificação acadêmica em programação e design na web, é ter testemunhado o nascimento da rede e convivido com seus pais. Todos foram habitués do programa sobre tecnologia que o professor apresentou na TV americana na década passada.

Para a maioria do público brasileiro, porém, projetos como o Coursera não funcionam. Aliás, a onipresente barreira do idioma limita o acesso a toda a produção disponível desde 2002, quando o Massachusetts Institute of Technology (MIT) começou o programa OpenCourseWare, colocando aulas de seus professores na web.

Foi pensando nisso que o engenheiro aeronáutico Carlos Souza e três sócios lançaram, em março, o portal Veduca, que já oferece 70 aulas de professores de grandes universidades com legendas em português. Isso é apenas uma pequena parte do total de 4.712 videoaulas que serão traduzidas. Todas estão hospedadas no portal, organizadas por temas. “Queremos democratizar a educação de alta qualidade no Brasil”, diz Souza, ex-executivo da área de marketing da Procter&Gamble.

Graças ao portal, quem não fala inglês pode assistir ao curso sobre compaixão dado pelo dalai-lama em Stanford, um dos hits do Veduca. Souza ainda procura patrocinadores, mas acha que fez a coisa certa ao apostar na educação gratuita. Um dos termômetros são e-mails enviados de todos os cantos do País, como este: “Olá, tenho 13 anos, meu sonho é ser astrofísico, com esses vídeos estou aprendendo muito. Obrigado aos organizadores do site e a quem colocou a legenda para facilitar o aprendizado.”

Parte da comunidade que assiste ao Veduca participa até da legendagem do material, de forma colaborativa. Depois, a equipe do portal, de dez tradutores, confere o conteúdo e publica. “É como uma Wikipedia.”

A médio prazo, o Veduca quer produzir conteúdo com universidades daqui. O portal chamou a atenção do pró-reitor de Graduação da Unicamp, Marcelo Knobel, que procurou Souza para conhecer o modelo do negócio. “Nosso interesse é divulgar o que produzimos na Unicamp. É preciso pensar numa parceria adequada; não é correto uma empresa ter lucro a partir da iniciativa de uma universidade pública.”

Na esfera pública, uma das experiências mais interessantes hoje no País é a da Univesp, criada em 2009, que tanto oferece programas formais a distância quanto cursos livres, por meio da Univesp TV. Os primeiros têm processos seletivo e dão diploma: a universidade virtual tem duas licenciaturas (em Ciências, em parceria com a USP; e em Pedagogia, com a Unesp) e duas especializações (em Ética, Valores e Saúde na Escola; e em Ética, Valores e Cidadania na Escola, ambas em convênio com a USP).

A Univesp TV põe na web e no canal digital 2.2 da TV Cultura (acessível para quem tem TV com conversor) aulas, cursos e entrevistas. Embora a maioria do conteúdo produzido seja feita em parceria com a USP, Unesp e Unicamp, a TV fez a legendagem do fenômeno Justice, série de 12 aulas do filósofo político Michael Sandel (o Veduca também está fazendo sua própria versão do material em português). Gravado em 2009 em Harvard como uma série de TV, Justice migrou para a web e fez de Sandel uma celebridade em países como Japão e China.

Num auditório lotado em Harvard, o professor provoca alunos a refletir sobre temas espinhosos, muitos baseados em casos reais: existe justificativa moral para a tortura, o assassinato ou o canibalismo? Uma mãe de aluguel pode romper o contrato e ficar com o bebê? As reflexões servem para introduzir o pensamento de gigantes como Aristóteles, Kant e John Stuart Mills.

Nesta segunda-feira, 30, a Univesp TV estreia seu segundo curso legendado, de Introdução à História da Grécia Antiga, produzido por Yale. Dado pelo professor Donald Kagan, ganhador em 2002 da Medalha Nacional de Humanidades, uma das maiores distinções acadêmicas dos Estados Unidos, o programa tem 24 aulas.

“Nosso primeiro objetivo é oferecer programas que apoiam o aprendizado dos alunos de cursos certificados, são parte do material didático desses cursos”, diz a coordenadora geral da Univesp TV, Mônica Teixeira. “Mas também estamos, cada vez mais, acompanhando cursos regulares das universidades paulistas e colocando o registro na íntegra na TV.”

Em alguns casos, a própria Univesp TV chama professores e especialistas e sugere que desenvolvam cursos curtos. Um exemplo é a série de cinco aulas sobre mudanças climáticas dada pelo físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado (Fapesp) e ex-reitor da Unicamp.

Outro destaque é o curso de extensão gravados no Centro Maria Antônia da USP em que o sociólogo Gabriel Cohn, ex-diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), fala da obra de Max Weber, tema no qual é referência no País. Nesse caso, a Univesp TV inverteu o processo do Veduca: fez a versão para o inglês das aulas de Cohn.

“As pessoas no mundo da TV e da imprensa acham que não se pode apostar no cidadão instruído ou que quer se instruir”, diz Mônica. “Mas dá para apostar, sim, tranquilamente. Não vai atingir a massa, 80% da população, claro, mas tem um público hoje totalmente desassistido nos meios de comunicação. Acompanhar um curso pode ser uma coisa genial, deliciosa.”

A coordenadora da Univesp TV faz o que prega. Já encarou tours de force, como assistir às 36 aulas do curso de Eletricidade e Magnetismo do MIT OpenCourseWare, dado por um dos professores-celebridade da universidade americana, Walter Lewin. “Ele é fantástico.”

Mônica não mostra o mesmo entusiasmo com a estética dos programas de universidades estrangeiras. “Ao contrário do MIT, por exemplo, a gente quer fazer direito. Lá eles só colocam uma câmera na sala. Se o professor mostra uma transparência, por exemplo, isso não aparece no quadro, porque não tem ninguém manejando a câmera”, diz. “Trabalhamos com outro padrão de qualidade, porque somos uma televisão.”

O campeão de acessos da Univesp TV pode parecer improvável. É Cálculo 1, do professor Renato Pedrosa, curso regular de graduação do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica. A primeira aula tinha na noite deste sábado, 28, 6.015 visualizações no canal da Univesp TV no Youtube (www.youtube.com/univesptv). No total, as 23 aulas de Pedrosa já tiveram mais de 15 mil visualizações.

Além de cursos como Cálculo 1 e Física 1, a Unicamp usou a parceria com a Univesp para criar uma grade mensal, com os programas Conversando sobre a Graduação e Aulas Magistrais, de grandes professores falando sobre temas como literatura, escravidão e aquecimento global.

Assistir a uma das Aulas Magistrais mais populares, Fisiologia do Amor, da Paixão e do Sexo, é uma experiência rica e desconcertante. Respeitado pesquisador do Instituto de Biologia, Miguel Arcanjo Areas usa e abusa do humor e de termos impublicáveis para falar de paixão, amor e sexo e sua relação com neurotransmissores.

A impressão geral da aula é a de programa de auditório que mistura tiradas capazes de ferir almas mais sensíveis, educação sentimental e orientação sexual, na linha da Marta Suplicy pré-política. Temperado com um repertório brega ao qual não faltam sertanejos e Fábio Jr. – Areas canta e arrisca falsetes. No final, é aplaudido de pé.

Muitos podem torcer o nariz, mas Areas consegue fazer da Aula Magistral um programa palatável tanto para alunos da Unicamp quanto para fãs do Pânico. Algo a se pensar quando a intenção é usar tecnologia para democratizar a educação.

SERVIÇO

Coursera (www.coursera.org)
Cursos com duração de 4 a 12 semanas sobre assuntos como Algoritmos, Teoria dos Jogos e Mitologia. As aulas são dadas por professores de Princeton, Stanford e das Universidades da Califórnia, de Michigan e da Pensilvânia

Udacity (www.udacity.com)
Criado por experts em robótica, oferece seis cursos na área tecnológica. Introdução à Inteligência Artificial, por exemplo, teve 160 mil alunos

Youtube EDU (www.youtube.com/education)
O maior portal de vídeos da web tem página de conteúdo educacional dividido em categorias como Universidade, Ensino Fundamental e Médio, e Aprendizado Para Toda a Vida

Veduca (www.veduca.com.br)
Site tem 70 aulas de professores de grandes universidades do mundo com legenda em português, mas promete oferecer versão de um total de 4.714 videoaulas

Univesp (www.univesp.ensinosuperior.sp.gov.br)
O programa do governo de SP vai se tornar uma universidade. Por enquanto, oferece graduação e pós em parceria com USP e Unesp. Parte das aulas e cursos livres estão disponíveis no site univesp.tv.br

Unicamp (www.prg.unicamp.br/aulas)
Aulas Magistrais reúne videos de grandes professores

iTunes U (www.apple.com/education/itunes-u)

Este aplicativo gratuito para iPad, iPhone e iPod touch tem um catálogo de mais de 500 mil palestras em vídeo ou áudio, livros e outros recursos educacionais de instituições como Stanford, Yale e MIT

Acreditamos que estudantes aprendem melhor pensando, praticando e interagindo com materiais e pessoas em vez de apenas assistir passivamente a vídeos. Assim, a interação é um componente- chave da nossa proposta pedagógica, algo fortemente integrado à nossa plataforma online e à nossa experiência – seja nos quizzes embedados nos vídeos das aulas, nas opções para acelerar ou retardar o programa de acordo com o ritmo individual de aprendizado, ou no fórum que facilita a discussão entre os estudantes. Certamente é um dos nossos diferenciais quando comparados a outros websites, que ainda dependem fortemente (ou unicamente) do conteúdo em vídeo e estão menos dispostos a investir em tecnologia capaz de garantir um novo patamar de interação na educação, tanto na sala de aula quanto online. Outro diferencial é a parceria com grandes universidades, que permitem aos seus melhores professores dar cursos para qualquer pessoa no mundo.

A maioria das videoaulas é um mero registro de aulas presenciais. O que é preciso para atrair outros atores, como, por exemplo, a Pixar, para oferecer uma verdadeira experiência multimídia aos estudantes?

Há um potencial enorme para criar experiências online que vão além do registro em vídeo e mesmo do formato tradicional de salas de aula ou palestras. O Coursera está certamente caminhando nessa direção quando oferece possibilidades de aprendizado interativas. Outras companhias, inclusive a Pixar, podem certamente ajudar a desenvolver todo o potencial da educação online pela adaptação de sua tecnologia ou expertise específicos às necessidades do ensino via web – criando, digamos, um genoma humano animado para uma classe de biologia.

Até onde a tecnologia pode tirar espaço do ensino superior presencial? Seu ex-colega de Stanford Sebastian Thrun (criador de outro portal de educação online, o Udacity) disse numa entrevista recente à revista Wired que daqui a 50 anos haverá apenas dez instituições oferecendo ensino superior em escala mundial. Você concorda com ele?

Não. Apesar do valor da educação online para muitos estudantes, aqui no Coursera acreditamos que as melhores universidades oferecem uma experiência de aprendizado tremendamente rica a seus estudantes no câmpus, algo que simplesmente não pode ser replicado online. Eles interagem uns com os outros em atividades criativas e se tornam aprendizes das melhores cabeças na sua área. É uma experiência única.

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